Publicado por: Thomas J. Schrage | 25/10/2009

Xixi no Banho e a mata Atlântica

Alguns de vocês já devem ter se deparado com a campanha “xixi” no banho, para “salvar” a mata atlântica.

É uma campanha muito bem feita e muito simpática [forçadamente simpática, pois as pessoas tendem a ter “nojinho” receios sobre assuntos que lembrem sua origem animal, como soltar resíduos – que é exatamente o que faz de um ser....  ser vivo!  (de acordo com as teorias da entropia aplicadas à vida que explicam que um ser só se mantém organizado ao poluir o meio ambiente]

Apesar da excelência em design e marketing da campanha pela S.O.S Mata Atlântica, creio que há algumas coisinhas a se falar.

A primeira é que de fato é inegável a economia de água ao fazer xixi no banho. Não só para o bolso do morador da casa, para o bolso do governo como para a saúde de nossa mãe Terra; mas não é solução única para todos os problemas…

Vamos ver o caminho da água para chegar a São Paulo (na região norte da região metropolitana de SP)

A água vem de rios, cujas nascentes encontram-se em SP e MG, em locais de intensa agricultura (ou seja, quase não há mais mata atlântica por lá). Passam por alguns reservatórios no Estado paulista até chegarem a um grande reservatório ao norte da Serra da Cantareira.  Aí, a água é elevada por uma usina elevatória para cima da Serra e depois é distribuída pela Sabesp.  Ou seja, a água será levada até São Paulo com ou sem descarga no seu banheiro… mas é um número estável de água que chega a São Paulo por esse caminho; se o gastar muito com descargas, não poderá gastar com outra coisa.

Mas mesmo assim eficácia real desse método de xixi no banho é muito, muito pequena perto do que se deve fazer. O sistema total de esgoto de São Paulo é infinitamente mais responsável por perdas de água do que a água gasta na sua casa ao não reciclar a água direito!  Se todos pararem de gastar tanta água, sem dúvidas o nível dos rios se manterá muito melhor do que está agora (por muito tempo, os níveis de São Paulo estavam abaixo do ideal). Mas, no fim, a água se já tiver sendo “bichada” na nascente, o problema começará bem mais cedo.

A luta simplesmente não para no xixi no banho.
Quanta água é desperdiçada na represa Billings, que abastece a região Sul da Região Metropolitana de São Paulo? Muita!!! Por conta de o reservatório estar com suas margens ocupadas por habitações ilegais. Meu caro… você e sua descarga é fixinha perto do lixo que os moradores soltam nessas reservas disperdisando muito água. E cadê os anúncios de pressão governamental para ativar usinas de saneamento lá? Lembro, inclusive, do CQC fazendo um “proteste já” por conta de uma usina ali desativada. O CQC, conseguindo ativar a Sabesp ali, irá economizar muito mais água que centenas de xixis no banho.

Salvar a Mata Atlântica também é outro problema… Nosso sistema produtor de água está em lugares já há muito desmatado. E possivelmente em constante poluição, por conta de agrotóxicos, estradas e empresas pouco conscientes. Lembro que fui num dos rios principais do sistema Cantareira (o da região norte da RMSP), logo na divisa de MG com SP. A quantidade de lixo vindo da estrada era incrível. Quem acompanhou o SP TV, da Rede Globo, com sua sonda nos rios paulistanos, sabe do que estou falando.

Depois da sua casa em São Paulo, a água irá seguir pelo Tietê até a bacia do Paraná. Apenas lá no final de sua vida, a água vai encontrar locais de mata atlântica ainda preservada.  O problema da Mata Atlântica é muito mais profundo: desmatamento, habitação ilegal, empresas “à la Cubatão”…

Mas o seu xixi no banho, não irá salvar tanto a mata atlântica assim. Salva indiretamente, mas infelizmente a água da sua descarga mal vê a mata atlântica, se não manchinhas de mata ciliares em locais mais ou menos preservados a muito custo.

Levar as pessoas a morarem em locais de preço de terra barata, geralmente em beiras de rios e represas; que por sua vez irão poluir os sistemas abastecedores de água, é um grande mal. É um mal ambiental que nasce de um mal social. É por isso que NUNCA podemos ver problemas ambientais desassociados de problemas sociais. Se o sistema capitalista de elevação do preço da terra não expulsasse os pobres para locais impróprios, você não ficaria tão preocupado (mas tomara que ainda um pouco) com o destino de seus líquidos corporais.

Xixi no banho é uma boa.

Mas  pressionar o governo a manter saneamento, uma rede de esgoto eficiente e políticas de moradias em locais próprios,  é muito mais  importante.

Além dos anúncios bonitinhos das gotinhas, deviam passar listas de políticos que permitiram indústrias e permitem agrotóxicos nas beiras dos rios. Ninguém sai por aí falando da venda ilegal desses produtos químicos, né?


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