Como todos devem saber, o Enem 2009 sofreu “fraudes” (na verdade, a palavra certa seria vazamento ou incop…).
Como esse não é um blog de notícias (se bem que minha falta de diploma em jornalismo não seria um motivo para tanto), ou comentários maldosos contra o governo, por que eu estou falando no Enem?
Bem. Irei resolver as questões que me cabem responder.
Como estou com preguiça, irei responder só as dessa prova e as imediatamente relacionadas com Geografia ou Teoria da Evolução.
As de prova humanas, estão nesse link do blog: http://latitude0.wordpress.com/2009/10/02/enem-2009-questoes-comentadas-parte-2/
(estou corrigindo aos poucos. São muitas e dá preguiça).
Para quem quiser a prova, há ela disponível na UOL
Como escrevi rápido, me desculpe a falta de formatação e erros de linguagem. Ao longo do tempo, conforme fazer as questões da prova 2, eu corrigirei.
Comentário geral da prova 1 no final.
Questão 1)
RESPOSTA: C
Creio que essa questão seja mais de vocabulário do que de conhecimento científico. Toda mãe no inverno já deve ter reclamado do vapor do chuveiro. Para criar todo aquele vapor, você teve que gastar mais energia. A energia, no caso da questão, provém do Sol. Uma gota menor pode facilmente evaporar com ela.
A temperatura, como eu já disse nesse blog, é o grau de agitação das moléculas. Quando você está bem alimentado, tem mais energia, e pode se agitar mais (por isso aquele red bull na balada). Mas não é a energia que faz a molécula subir pelo ar, na verdade, as moléculas ficam mais distantes e com menor pressão interna, ficando menos densa que a atmosfera.
Questão 4)
RESPOSTA: E
É uma questão do tipo que na faculdade você não tentaria nem responder… “O que é meio ambiente”. MEIO e AMBIENTE (já pensaram que são palavras diferentes que um dia foram juntadas por uma mente do mal?). Há livros só tentando responder essas coisas. Mas é isso que faz a questão ser uma das mais inteligentes que eu já vi no Enem.
MEIO não quer dizer, no caso, “metade” nem “método”. Meio é um conjunto de elementos que criam certa circunstância (por exemplo: meio físico, meio aquoso). Ambiente, é o local onde esse conjunto de coisas está. Em sentido mais direto, o meio ambiente existe em qualquer lugar. A chave da questão foi talvez a visão do diretor da empresa, pois ele “sabia que a empresa fazia parte do meio ambiente”, e geralmente associamos empresa com ambientes muito transformados pelo homem.
A alternativa E, na Biologia, possuí uma palavra própria e mais direta, além de meio ambiente: ECOSSISTEMA.
Questão 6) Alternativa E
Darwin e sua teoria são uma das coisas mais complicadas de se entender, pois exige uma visão de milhares e milhares de anos, o que foge da escala humana.
A lei do USO e DESUSO é geralmente remetida ao Lamarck. Acontece que, imagina se um animal só mantém aquilo que usa, e depois passa só o que usa para seu filho? Aí, seu filho preciso daquilo que seu pai tinha e não lhe passou, e morre. A questão B é irreal e não tem lógica, a D também é mentira, todo mundo sabe que existe sapo ainda, se não sabe, tem que ver mais filme de princesa da Disney ou ir urgentemente fazer uma trilha.
A questão C é complicada pois “caracteres adquiridos” dão uma idéia errada da teoria evolutiva.
Questão 7)
Resposta: D
Outra questão sobre água, para dar sede em quem fizesse a prova
A resposta A, é irreal. A água subterrânea é o que abastece os rios. Um rio pode superficialmente secar, mas depois ele voltará no mesmo local graças ao abastecimento subterrâneo; é inclusive vital em diversos locais do Brasil. A alternativa B é boba, afinal, (1) água do mar é salgada e (2) desviar o mar, nível de base, para um rio implicaria em vencer a gravidade (ou você já viu rio correr do mar para a nascente? eu só vi isso no desenho Caverna do Dragão).
A questão C é tema para filme de ficção, sendo, aliás, impossível adaptar uma célula humana a ficar num meio salgado (ela ia ficar sugando a água até explodir) : beber água salgada mata, meus caros.
E a questão E não seria legal também… O oceano é importantíssimo na cadeia alimentar, na manutenção de temperaturas e gases (graças a algas, etc..) além de que tomar banho em água do mar limpa é bem melhor (já bastam no ano novo aquelas velas e garrafas para Iemanjá, né).
Questão 8 )
A reposta correta é: D, semelhante a questão anterior.
E lá vem mais água!
Creio que essa não precisa de explicação.
Questão 9)
É B a correta
Essa questão está errada no seu enunciado. O principal gás do efeito estufa (ou seja, do aquecimento global) é o vapor da água. Mas enfim…
Na alt. A, a geleira iria crescer. Foi uma alternativa tendenciosa ao erro que pegaria um aluno sem muita atenção (como eu era nas provas).
A B está certa. Mais frio as geleiras iriam crescer (pois, os topos das montanhas que já tendem a ser mais frio pela altitude, seriam mais frios ainda). O reverso ocorre hoje: gentes nos Alpes suíços ficam “embrulhando” suas geleiras para não derreterem e acabar o turismo de esqui na região.
A água que ficaria “presa” nas geleiras, não iria para o mar. Isso faria o mar descer (tanto, que na última glaciação ligou-se uma ponte entre a Sibéria e o Alaska permitindo a imigração para as Américas). O relevo também muda, pois as geleiras são extremamente fortes no intemperismo mecânico e elas por si só já constituem um relevo (relevo é o mesmo que “forma/visível”).
Fora isso, creio que todos que viram coisas como O dia depois de amanhã, ou Era do Gelo, sabem responder.
As cidades do Hemisfério Norte, por exemplo, sofreriam muito com um frio. Principalmente seu abastecimento agrícola. Animais e plantas também imigrariam para o Sul (no caso do Hemisfério Norte), pois não poderiam sobreviver num local sempre congelado (sem uma estação de verão onde aparecem gramas, etc…)
Questão 10
Alternativa B
Também descarta comentários. Talvez a questão C precise de um: isso seria resolver as conseqüências do problema, e não suas causas.
Questão 12
Alternativa C.
Questão bem legal!!!
É mais uma interpretação de texto; lendo ele com atenção não se criaria problemas.
A questão A, está errada por culpar a similiariedade de ambientes por diferenças. Na verdade, o próprio texto diz que locais diferentes que implicam em espécies diferentes.
Mas vale uma ressalva: Biomas semelhantes podem de fato ter espécies diferentes, isso por causa do que os evolucionistas chamam de “mutação randômica”; , mas mesmo neste caso, é a história evolutiva do animal importa mais que o bioma. Por exemplo: no mesmo bioma de savana, surgiu nossa espécie bípede e os babuínos que deixaram quase totalmente o bipedismo para andar sobre 4 membros; eles não viraram bípedes por pura sorte (ou azar) além do “mercado de ocasião” trófico.
B) dificilmente espécies diferentes teriam filhos… Além de que isso não explicaria diversidades grandes (cruzamentos seriam eventuais).
C) Ambientes diferentes implicam em condições diferentes, que selecionam os mais adaptados. Além de que isolamento causa maior transmissão de genes em mutação (pois a população é menor). Mas, não é apenas o ambiente diferente que causa espécies diferentes, na verdade, ele SELECIONA.
Questão 13
Alternativa correta B
obs: não só dos organismos, mas também da Natureza. Ambientes costeiros tem muito mais equilíbrio térmico ao longo do dia e das estações, inclusive, sendo (de acordo com algumas teorias arqueológicas sul americanas) a causa das migrações do continente Americano prevalecer em zonas costeiras do que interioranas.
Questão 16)
Alternativa D.
Olha, eu considerei essa questão difícil, principalmente na parte do ODOR.
Eventualmente, junto à turma de Hidrografia, visitamos todo o abastecimento de água de São Paulo; das usinas, mas até as nascentes e nem me lembrei muito sobre odor. Imagino que só um aluno com um bom professor, que explicou o processo, poderia responder sossegados essa questão.
Talvez fosse mais fácil saber a parte de desinfetar, o 5; lembrando que cloro é posto em piscina, é posto em detergente, e até mesmo em remédios. Dessa forma, por eliminação chegaria à questão certa (afinal, qualquer um saberia que bombeamento não tem implicação em cheiro.)
Questão 19)
Alternativa D.
A energia potencial gravitacional seria, por exemplo, a de rios (talvez isso seja mais Física que Geografia)
A alternativa B coloca o Sol no meio. Talvez aí entre um pouco de Geografia. O núcleo quente da Terra, acredita-se, tem origem na formação do sistema Solar, ou seja, é tão antigo quanto o próprio Sol. Outras teorias acreditam que ele foi “ativado” numa colisão de dois planetas (cujo filho foi o nosso e a Lua), seja como for, o Sol ainda era um bebê quando isso ocorreu e tinha muita pouca energia, não influenciando em nada na Energia Geotérmica.
A alternativa C coloca sal no meio, isso é meio absurdo. A questão E tem uma primeira parte correta, mas na segunda, peca: a energia geotérmica não produz resíduos (não visíveis ou prejudiciais ao meio ambiente).
Questão 35
Alternativa C
Eu sofro com essas ilhas de calor viu…
Nas ciências, essa capacidade do material de refletir a luz se chama Albedo.
Uma solução legal para as ilhas de calor, vêm sendo plantar (sic) no teto de grandes edifícios. Em algumas cidades da Europa, isso, inclusive é obrigação. Em outras (e parece que São Paulo seguirá essa idéia), há redução de impostos.
Não só as árvores e vegetação, pela sua cor e material ajuda na redução de calor, como também seus processos de vida e sombreamento do solo. Para se ter idéia, lendo livros antigos sobre São Paulo, há trechos que relatam que os portugueses gostaram daqui, pois “lembrava o clima temperado (sic) de Portugal” (mesmo que com muita neblina).
Para responder a questão, teria (como na maioria das questões de físicas) ter uma gama teoria por trás (no caso, saber o que é calor específico e capacidade térmica).
Questão 38
Alternativa D.
Outra questão inteligente.
A alternativa A, é mais uma vez, conseqüência e não causa.
Alternativa B: não vejo nenhuma ligação aos dois eventos, tanto que nem posso comentar.
C: talvez isso fosse também conseqüência, e não causa. (o sal puxa umidade sim… tanto que meu saleiro vive entupido).
D: o vento é um dos maiores transportadores de pequenas partículas; desde neves, areias (dunas do Saara ou Maranhão) até sal… É pelo transporte do vento, por exemplo, que se disseminam algumas sementes. Outro efeito do transporte do vento é poluir culturas sensíveis, ou carregar poluição de estradas para lavoura (por isso que se plantam cercas vivas ao longo dessas lavouras).
A questão E também não preciso comentar… né.
COMENTÁRIOS GERAIS SOBRE GEOGRAFIA NO NOVO ENEM
Bem mais simples que uma FUVEST ou vestibular de Federal, e bem mais elaborada do que geralmente é o Enem – mas ainda muito “fácil”. Não houve (como não haveria de ter) inovações drásticas. Creio que por ser uma “novidade” ainda, não mudaram muito.
A prova foi muito bem equilibrada entre Biologia, Geografia, Química etc… Inclusive, conseguiu abrir zonas de contato entre disciplinas diferentes, no caso da Geografia principalmente com a Biologia.
Até que foi uma prova madura (nos moldes do Enem). Foi uma boa avaliação, (a prova de ciências da Natureza). Mas infelizmente parece ainda muito simples. Não é o suficiente exigente para um país que quer um grande desenvolvimento científico e tecnológico. Além de que uma prova muito fácil tende a elevar muito as notas, fazendo que a redação e a sorte seja fundamental no desempate. Um descuido ou um erro de uma questão pode deixar o aluno atrás de muitos outros, sendo que essa questão errada não significa necessariamente que o aluno tenha de fato que estudar um ano a mais num cursinho.
Visivelmente na parte de Geografia Física há uma mesma linha de pensamento, tratando-se do Meio Ambiente (é a tendência de ser politicamente correto), unido por temas em comum, como “Água” em primeiro lugar e em segundo Fontes de Energia; o que, aliás, não é nada original no Enem.
Trocadilho: de tanta água, o Enem foi por água abaixo
Alguns temas como aqüífero Guarani e Amazônia ficaram de fora. Se a prova manter a mesma linha, com certeza uma hora ou outra irão aparecer. Incrível que a palavra que o Governo mais gosta (pois a prova obviamente foi feita nos moldes ideológicos do Governo) não surgiu: desenvolvimento sustentável.
Um aluno mais bem atualizado, com uma visão mais crítica se daria bem. Um aluno que lê revistas de atualidades, navega em sites de ciência (como esse hehe) e tem um professor que discute temas em sala de aula e não só passa trecho de livros, se daria bem.
Isso porque evitou-se a decoreba… Não se perguntou coisas relacionadas a relevo, solo e rochas (uma pena!), o que remete a visão que a ecologia geralmente possuí de se excluir esses elementos mais “duros”. Imagino, ainda, que o Enem manterá o tema do Meio Ambiente (relação do antrópico e natural e relação de organismos vivos com abióticos) como carro chefe. Não obstante, eventualmente (dificilmente) pode aparecer algum outro tema relacionado aos impactos do homem em solos ou ocupação humana em relevos de risco (o que era quase impossível no antigo Enem).
Para exemplificar: O Enem dificilmente perguntaria “como se forma um vulcão”, mas poderia usar, por exemplo, isso de fundo para falar sobre a renovação da natureza. Se o tema mudar de água para “fome” (como pode facilmente ocorrer), não se perguntaria a química do solo, mas possivelmente usaria-se o issue da renovação da fertilidade de um solo para se comentar sobre a expansão na Amazônia ou Cerrado.
A prova também utilizou um recurso bastante legal: o de o aluno saber o que é causa e conseqüência. Muitas alternativas não eram erradas, mas, conforme se perguntava “a causa do problema”, elas remetiam a conseqüência. Isso, pelo lado bom, exige um raciocínio processual do aluno (saber onde começa a coisa, para poder solucioná-la) que é o que se espera de um aluno: não decorar, mas raciocinar. O lado ruim, é que um aluno com sono, fome e cansado (como possivelmente ficará em Novembro) tenderá ao erro.
Ou seja (resumindo): A prova optou um meio legal de avaliar os alunos. O tipo de raciocínio exigido e a os temas são legais. Porém, infelizmente o Enem subestimou a inteligência dos brasileiros e não pode querer ser o vestibular de uma instituição que almeje ser uma das melhores do mundo.
Para finalizar, a pergunta que eu faço é a seguinte. No mundo no qual vivemos, cuja noção de progresso é a noção guia, e cujo consumismo está cada vez mais sendo impregnado em nossa mente (a tal “sociedade burocrática de consumo dirigido”, cujo “Deus é o Carro”, de Lefebvre), de que adianta uma prova que cite temas de reciclagem e consciência ambiental? De que adianta saber onde jogar o lixo, se cada vez mais criamos mais e mais e mais e mais lixo e somos induzidos a comprá-lo?